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terça-feira, 18 de junho de 2013

Tatiana Belinky e o feitiço do verbo



“[...] Porque dentro de um livro cabe um castelo, uma floresta, uma cidade inteira…”

Em 1919, uma guerra civil assolava o território russo. Viver na terra de Stálin havia se tornado uma opção arriscada demais para aquela família, que, em meio a tanta confusão, resolveu migrar para a Letônia algum tempo depois. A menina Tatiana tinha pouco mais de um ano.

Tatiana passou parte da infância naquele país, na cidade de Riga. Sempre apaixonada por livros, aprendeu a ler cedo, descobrindo, por meio da leitura, um universo infinito de coisas infinitas. Em 1929, com dez anos de idade, teve de partir para o Brasil com a família, em decorrência de inúmeros problemas políticos e sociais na Letônia. Naquele ano, chegava ao Rio de Janeiro, a jovenzinha que seria uma das mais proeminentes escritoras da nossa literatura infanto-juvenil, Tatiana Belinky.

Ainda que em território desconhecido, a pequena não hesitou em querer conhecer a literatura da nossa terra. Um dos primeiros textos que leu em Português foi uma biografia de Monteiro Lobato. Desde então, Belinky passou a se familiarizar com as nossas letras. Lobato já era um renomado escritor. Nesta época, criava polêmicas com suas críticas sociais ,ao mesmo tempo em que adquiria uma legião cada vez maior de leitores por sua obra fascinante.

Tatiana casou-se com Júlio Gouveia, intelectual com quem escreveu em parceria, adaptando grandes clássicos infantis para o teatro. Naquele tempo, não havia teatro para crianças. O casal foi precursor na arte de entreter o público infantil nos palcos. A primeira peça foi uma adaptação do clássico Peter Pan.

Lobato
Certa noite, Tatiana recebeu um telefonema inesperado. Era o escritor Monteiro Lobato, que queria conhecer seu marido, Júlio Gouveia, porque havia se encantado por um texto do dramaturgo. Pouco tempo depois, Lobato fez uma visita ao casal, tomou um cafezinho, e os três conversaram durante duas horas. Júlio e Tatiana quase não acreditavam que aquilo estava acontecendo. O casal mantinha uma admiração tão intensa pelo escritor, que depois de se despedir do pai de Emília e Visconde com um aperto de mão, Gouveia brincou: “Nunca mais lavo esta mão!”

A relação do casal com Lobato não terminaria ali. Tempos mais tarde, Tatiana e Julio foram convidados para elaborar a primeira adaptação do “Sítio do Pica Pau amarelo” para a TV. A fazenda de dona Benta saiu dos livros para a telinha na década de 1950, encantando até mesmo o público adulto.

Tatiana nas prateleiras
Em 1985, Tatiana lançou-se também como escritora de livros, chegando a publicar 150 obras que a renderam uma série de prêmios, como o Jabuti de 1989. Ao enumerar os sonhos de sua infância, a escritora certa vez contou que um deles era o de ser bruxa. Uma bruxa boa que pudesse transformar tudo com um toque de magia.

Aos 94 anos, Tatiana talvez tenha se dado conta de que não precisou ter se tornado uma bruxa para transformar a vida de milhares de crianças por meio do toque mágico e sublime de sua literatura. Embora tenha nos dado adeus no último domingo, deixou um caleidoscópio literário que ainda promete colorir a infância de muita gente.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Uma razão às avessas


Entre as máximas de Voltaire, está aquela que, para mim, representa o ápice do equilíbrio racional: “Posso não concordar com nenhuma palavra que você diz, mas defenderei até a morte seu direito de dizê-la.” Fruto de uma geração de pensadores guiados pelo livre uso de uma razão bombardeada por fanáticos dos mais variados calibres, o filósofo, também poeta, dramaturgo e romancista, procurava basear sua obra em pensamentos independentes de qualquer conceito prévio que pudesse esbarrar em suas ideias.

Assim como o francês, outros intelectuais, conscientes de que a tolerância e o respeito deveriam andar juntos, viam na análise ponderada de credos e modos de vida, um caminho de luz e sabedoria. Quase 300 anos depois da publicação da primeira obra de Voltaire, a mesma razão que desatou o nó do Antigo Regime no século XVIII e respingou ideais de liberdade no mundo inteiro tem ganhado novas faces. A mais ridícula delas aparece sob a forma de preconceito. Sobretudo, um grupo em especial me chama a atenção: o de ateus que, assim como religiosos que subestimam o caráter dos alheios à fé, questionam a bagagem intelectual de teístas, contrapondo fé e razão de maneira tosca e grotesca .

É fato que o repúdio cego aos ateus é comum e pobre, como já mencionaram Eliane Brum e Dráuzio Varela (colunistas de quem gosto muito) em artigos publicados em grandes veículos de comunicação. Mas, por outro lado, há um grande número de ateus que não hesita em atacar criacionistas, seja em sátiras superficiais e ofensivas nas mídias sociais, seja em rodinhas de conversa entre amigos. O mais engraçado é que a maioria deles justifica a descrença em Deus em um discurso pautado na razão, mas se afasta de um dos princípios básicos do pensamento racional: a tolerância.

Sim, Voltaire deve estar se remoendo na cova. A propósito, duvido que algum filósofo iluminista, de Spinoza a Rousseau, estaria em paz consigo mesmo com essa situação. Voltaire era cristão. Spinoza, uma espécie de panteísta. Diderot, ateu. Entretanto, nenhum deles abriu mão de pensar de forma coerente frente às ideias alheias, apesar das claras divergências entre a forma como encaravam a metafísica.

A Igreja matou milhões, a política está repleta de cristãos militantes, oportunistas ou não. Ok. Mas isso não deve justificar a insensatez de quem pretende combater a cegueira moral com a mesma moeda. O que é bom, a gente repassa, o que é ruim, a gente descarta. Isso é tão simples!

27 de abril de 2012