segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

280 dias

Janeiro quente, emprego novo: primeira semana de estágio. Sexta-feira atribulada. Redação a mil. Acidente em rodovia. Ônibus velho e caminhão de cimento. O chefe entra correndo.

- Lívia, pega o cinegrafista e vai.

Foi assim que conheci o sujeito pelo qual procurava desde os onze anos. Um velhinho descolado, de calça xadrez e óculos de sol. Quase não acreditei.

- É você, Jornalismo?

Ele ignorou meu olhar bajulador. Sem o menor glamour, me abriu um sorriso modesto e selou nosso primeiro encontro com uma piscadela marota. Talvez tenha sido um jeito de dar boas vindas. E todo dia, ele entrava de roupa nova, ora beirando o desespero, com blusão de bebum arrasado, ora sorrindo até as orelhas, de batinha estilo Gandhi. E eu ficava olhando, esperando ansiosa pela roupa seguinte. Até ele gritar comigo e me propor um convite quase que compulsório:

- Tá esperando o quê, menina? Vá se trocar, agora!

Entrei no armário dele. Vi gente triste, vi gente alegre, vi gente presa, gente com sorte, gente má, gente boa até demais. Me despi de mim pra me vestir de vida. O velhinho achou graça.

- Agora sim!

Saí na rua e vi um mundo esquisito. O mundo de Nelson Rodrigues, de Dostoievski, de Machado… O mundo louco e realista que por muito tempo eu me neguei a enxergar. E os grandes mestres, antes refutados por meu espírito utópico e minha alma lunática, deram gargalhadas, parados em minha frente.

- A gente bem que tentou te avisar.

Soltei da mão de Alice. Me despedi da Rainha de Copas e do Chapeleiro Maluco. Olhei pro tal Jornalismo:

- Agora eu vou com você.

Da floresta encantada, fui cair numa selva cujo encanto era o mais real possível. O velhinho virou o mundo do avesso pra mim e me fez notar as coisas muito além da superfície. Com um olhar firme e satisfeito, sorriu, como quem entrega uma missão a alguém:

- Agora conte a história, minha filha. Mostra o mundo a quem quer ver.

Deixas, sonoras e offs… ou seriam offs, sonoras e deixas? Perdida em entre termos, contatos, furos e pautas, passei a cantar baixinho, o velho mantra de Leminski:

- Distraídos, venceremos.

E, mais uma vez, o velhinho me sacudiu:

- Volta pra Terra, já!

Desde então tem sido assim. Quando me distraio em caminhos metafóricos lá do alto da montanha, ele me traz de volta pra me mostrar que Jornalismo é poesia por si só.

Oito meses depois, e aqui estou. Já chorei de medo, de pânico, de pena, de culpa, quis até ser abduzida. Mas cada vez que olho pro velhinho louco de perto, quero jurar amor eterno, jogar meu medo fora, mostrar o mundo ao mundo e abraçá-lo com vontade pra dizer sem nenhum receio:

- É um prazer te conhecer!

Talvez porque depois daquele encontro, algo me fez sentir que seríamos companheiros para o resto da vida.

Setembro/2012

4 comentários:

Merie Weber disse...

Meu Deus, que texto lindo Lívia. Acho que foi toda essa verdade que me afastou do jornalismo, não consegui soltar da mão da Alice.

Aurora disse...

Maravilhoso o texto. Existe coisa melhor que fazer o que gosta?!

http://umsoprononada.blogspot.com.br/

Gaby Soncini disse...

Ah que saudades eu estava de te ler!
Que texto Lívia, que texto!

Beijos!

Ligia Silveira disse...

Livioca Alice mandou beijos. Cruzei com ela esses dias. Mas o jornalismo não me deixou ficar. Beijos (agora meus).