quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Teclado

Às vezes queria poder dar Ctrl + F dentro de mim para encontrar a razão camuflada entre as minhas perguntas sem resposta.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Com uma peça a menos

Cabecinha de Vento era um bonequinho de Lego muito “avoado”. Esquecia-se de tudo e sempre passava por poucas e boas por conta disso. Um dia , foi comprar mistura para a mãe e esqueceu as moedas em cima da mesa. Teve de voltar correndo antes de o mercadinho fechar, pra buscar o dinheiro. Ao voltar, comprou tudo o que dona Lego pedira, mas ficou tão atento ao troco,que esqueceu as compras no balcão. Quando retornou, o Boneco-Verdureiro já havia fechado o mercado. Se não fosse o seu pai, que, dias antes, havia guardado “miojo” no armário,a família inteira ficaria sem janta.

O bonequinho também era dono de ir à escola e esquecer o lápis e o caderno em cima da cama. Pobrezinho! Sempre levava bronca da professora:

- Esqueceu o caderno outra vez, Cabecinha de Vento?
- Sim, professora…
- E agora, onde vai copiar a tarefa?
- Não sei…
- Leve o caderno da Barbie para copiar a lição de hoje e trate de colocar suas atividades em dia! Eu quero tudo pronto até amanhã!
- Sim, sim, professora!

À tarde, enquanto todas as crianças se divertiam no campinho de futebol, Cabecinha de Vento copiava a matéria atrasada pelo seu esquecimento. E no dia seguinte, tornava a esquecer o material escolar.

Seu pai, o senhor Lego, sempre ficava muito bravo com essa situação:

- Ô Cabecinha de Vento! Esse seu esquecimento é absurdo! Você só não esquece a cabeça porque está colada no pescoço!

E não é que um dia, ele esqueceu mesmo a cabeça em casa! Certa vez, desmontou a cabeça para tomar banho, como de costume, mas deixou-a no banheiro e foi à escola, logo cedo. Ao perceber o desleixo do irmão, Cabecinha de Açúcar foi correndo atrás da mãe:

- Manhêê! O Cabecinha de Vento esqueceu a cabeça!
- Mas não é possível, filha! – Exclamou a mãe, intrigada.
As duas saíram de casa e, de longe, avistaram Cabecinha de Vento, sem cabeça, passando sobre o trilho do trenzinho.
- Mamãe! – Gritou Cabecinha de Açúcar – Ele será atropelado!
- Vamos correr, filha!

Desesperadas, as duas gritavam o boneco. Em vão! Ele não escutava, não enxergava e não falava, afinal de contas, estava sem cabeça.

Após atravessar a linha, foi caminhando ao meio da rua e acabou sendo atropelado pelo Carrinho de Madeira, que não teve culpa do acidente.

Cabecinha de Vento foi parar no hospital. Sua perna esquerda foi toda desmontada. Uma peça azul ficou perdida embaixo da ambulância e o Doutor teve que substituí-la por uma amarela. Ficou estranho, mas não tinha outro jeito. Apelar para um implante de peças artificiais, àquela altura do campeonato, era arriscado demais.

Hoje, todas as vezes que Cabecinha de Vento olha para aquela peça diferente em seu corpinho, se lembra de confirmar se não esqueceu nada em casa e confere se a sua cabeça está sobre seu pescoço.

Ultimamente não tem se esquecido de muita coisa. Tomara que continue assim,não é mesmo?

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Razões

- Tia, eu quero pão de queijo.
- Lá em casa tem bolacha.
- Mas eu não quero bolacha, eu quero pão de queijo.
- Deixe de ser ingrato! Há crianças como você que gostariam de ter uma bolacha em casa e não têm!
- E há crianças, como eu, que gostariam de ter um pão de queijo em casa e não têm!

terça-feira, 16 de agosto de 2011

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

A cesta

Sim, Chapeuzinho Vermelho teve medo de atravessar a mata escura.

Sentada à mesa da cozinha, enquanto sua mãe preparava os comes para a cesta da vovó, a menina tremia só de pensar que mais tarde teria de desafiar a floresta.

Pensou em se esconder até que o dia terminasse e desse a hora de dormir. Pensou em comer toda a comida da cesta e dizer à mãe que havia entregue tudo à avó. Pensou, pensou. Chorou por dentro. Tremeu.

Mas, ao olhar para a cesta bem cheia, lembrou-se de que a velhinha poderia morrer de fome se a cestinha não chegasse à casa da senhora como deveria e que isso era mais importante do que qualquer monstro no meio da floresta. Por isso, Chapeuzinho seguiu seu caminho.

Há momentos na vida em que o desespero toma conta da gente.
Nosso medo chega a transbordar nossos sentidos quando um caminho escuro se estende aos nossos olhos. A estrada é longa, a floresta é deserta e não há ninguém que possa cruzá-la em nosso lugar.

Planejamos enganar a nós mesmos. Pensamos em jogar fora a cestinha que temos nas mãos. Mas a coragem nasce quando nos damos conta de que do outro lado da mata há um sonho vivo que precisa ser alimentado porque não pode morrer tão cedo.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Lápis

Tenho cavado as verdades do mundo nas linhas do meu caderno. A vida se enterra em mistérios? Pois bem, eu trouxe a pá!

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Maiêutica infantil

-Mãe!
-Sim?
-Onde é o fim do mundo?
-O mundo não tem fim.
-Mas o papai disse que a tia Joana mora lá no fim do mundo…
-Modo de dizer, filho…
-Mas… Fim do mundo… Dever existir sim o fim do mundo!
-Não, Juninho. Não existe!
-Ah, mas existe sim. Se eu andar e andar eu ainda chego no fim do mundo, a senhora vai ver!
-Está certo.
-Aí eu te falo onde é tá, mãe!
-Tá certo!
Juninho volta cinco minutos depois.
-Mãe.
-Diga.
-Por que a gente dorme?
-Porque a gente se cansa.
-Mas por que a gente se cansa?
-Porque ninguém é de ferro, filho.
-Ah, então quem é de ferro não se cansa?
-Não.
-E quem é de ferro?
-Ninguém.
-Ninguém, mãe?
-Ninguém, filho.
-Mas isso está errado, mãe!
-O que?
-Tínhamos que ser de ferro!
-Por quê?
-Imagine só, mãe, se todo mundo fosse de ferro: Ninguém ficaria cansado!
-Ai, meu filho…!
-Mas ia ser chato, né,mãe?
- O que?
-A vida. Todo mundo iria gostar de acordar cedo. Bem, acordar não, porque ninguém dormiria não é? E que graça teriam as férias?Ninguém iria se importar se as férias chegassem. Aliás, ninguém precisaria de férias.
-Verdade.
-Seria tudo tão chato. Todo mundo iria querer trabalhar. Ninguém olharia para ninguém.
-Verdade.
-Mãe! Acabo de descobrir agora!
- O que?
-A importância da preguiça!
-Como?
-Se ninguém tivesse preguiça, todo mundo teria preguiça de viver.
-Como assim?
-Ora, mãe, a vida seria uma coisa tão trabalhosa, com tanto trabalho que não teria graça. As pessoas fabricariam um monte de regadores, mas nunca parariam para ver a beleza de uma flor que foi regada. Imagine só!
-É filho, você tem toda razão. Vá pegar o sabão em pó pra mamãe na varanda, por favor.
-Tá.
Juninho volta correndo e entrega o sabão em pó para a mãe.
-Mãe.
-Sim?
-Por que a nossa casa tem parede?
-Para segurar o teto.
-Mas e se tivesse só as portas, não daria para segurar o teto?
-Não.
-Mas…
-Ah, Juninho! Vá brincar!
-Mas, mãe…
-Deus é pai! Diga, menino!
-Nossa, mãe!
-O que?
-Deus é pai?
-Sim.
-Mas quem é o pai de Deus?
-Não sei.
-Não sabe?
-Não.
-Mas como, não sabe?
-Deus não tem pai, Juninho!
-Não?
-Não.
Dois minutos depois o menino volta.
-Mãe.
-Sim?
-A senhora não fica com pena dele?
-De quem?
-De Deus.
-Por quê?
-Porque ele é tão bom… E nem tem pai.
-Juninho…
-Mas ele tem mãe, não tem?
-Não sei.
-Não sabe?
-Não, filho, é porque…
-Ele tem ou não tem mãe?
-É que ele não é gente como a gente,filho.
-Então ele é de ferro?
-Não.
-Mas…
-Ele nunca dorme, mãe?
-Não.
-Então ele é de ferro?
-Não!
-Mas, mãe…
-Um dia entenderemos tudo isso, filho….
-Um dia,quando, mãe?
-Ah, filho! Vá brincar!
-Tá bom, mãe, não fique brava comigo, eu já vou.
Juninho some. Desesperada, a mãe pergunta à vizinha se ela sabe onde seu filho está e a vizinha responde tranqüilamente, sentada na calçada:
-Há algumas horas ele estava aqui na rua. Saiu dizendo que iria procurar onde fica o fim do mundo e que já estava voltando.