terça-feira, 17 de dezembro de 2013

A dor do vizinho

- Nâna,faz mais de duas horas que seu vizinho está escutando essa música deprimente e ainda insiste em colocar o som no último volume! Por que isso?
- Porque às vezes a gente precisa escutar algo que cante mais alto do que a nossa dor…

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

domingo, 25 de agosto de 2013



Quando acordei esta manhã no quarto úmido e escuro, ouvindo o tamborilar da chuva por todos os lados, tive a impressão de que havia sarado. Estava curada das palpitações no coração que me atormentaram nos últimos dois dias, praticamente impedindo que eu lesse, pensasse ou mesmo levasse a mão ao peito. Um pássaro alucinado se debatia lá dentro, preso na gaiola de osso, disposto a rompê-lo e sair, sacudindo meu corpo inteiro a cada tentativa. Senti vontade de golpear meu coração, arrancá-lo para deter aquela pulsação ridícula que parecia querer saltar do meu coração e sair pelo mundo, seguindo seu próprio rumo. Deitada, com a mão entre os seios, alegrei-me por acordar e sentir a batida tranquila, ritmada e quase imperceptível de meu coração em repouso. Levantei-me, esperando a cada momento ser novamente atormentada, mas isso não ocorreu. Desde que acordei estou em paz. 

Sylvia Plath

segunda-feira, 19 de agosto de 2013




Querido deus, 

A sua memória é proporcional à sua grandeza. Então, com certeza, o senhor deve se lembrar de quando o conheci. Eu tinha pouco mais de três anos e chorava, desesperadamente, por um pesadelo contínuo e atormentador que não me deixava em paz. 

Todas as noites, uma santa de barro me aparecia em sonho e queria me cortar o pescoço. Eu tinha tanto medo! À noite, tinha medo de dormir. De manhã, tinha medo de acordar. Eu era criança, recém entregue à vida e já morria de medo dela. 

Dormir e acordar dependia de mim. Eu poderia controlar meu pulo na cama, meus passos até o quarto dos meus pais. Mas meus sonhos, não. Eu podia controlar o externo, mas, dentro de mim, ah! dentro de mim era onde morava o problema. 

E o que eu ia dizer pros meus pais? Que estava com medo de uma santa? Uma santa inofensiva? Uma santa de barro? Eu tinha vergonha. E me sufocava. "Estou com medo, mamãe." E só. 

Todas as noites, ao apagar a luz do meu quarto, minha mãe me dizia: "Durma com deus". E me contou que deus era um pai amoroso e bom, que, embora não pudéssemos ver, viria nos ajudar, em qualquer ocasião, onde quer que estivéssemos. Sim, era do senhor que ela falava. 

Talvez o papai do céu fosse capaz de entender aquela dor que só eu entendia. Então, embora não me recorde do dia e do momento exato, comecei a chamá-lo sempre.

 "Papai do céu, proteja a mamãe, o papai e eu. E não deixe a santa vir. Não me deixe sonhar sonho ruim. Amém". 

Era mais que um ritual diário. Eu fazia dos meus começos de noite um santuário temporal, um oráculo, um paraíso na Terra, um mundinho cheio de nuvens branquinhas que me aqueciam no frio do desespero. E eu dormia. Em paz. 

A santa de barro? De repente, parou de dar as caras. 

Foi assim que nasceu minha fé. 

O senhor deve se lembrar de que eu era meio sozinha e tinha amigos imaginários. Muitos. Mas você era meu amigo real. Meu melhor amigo. 

Lembra daquela vez em que eu fugi da escola para o meu pai não me castigar por não querer almoçar? Aquela avenida cheia de carros correndo e eu, tão minúscula, pensei que fosse morrer com sete anos de idade! Mas eu tinha o senhor bem pertinho. Quando cheguei em casa, apanhei por ser fujona. Mas quanto aos carros monstruosamente grandes... Eu sobrevivi a eles. Tal qual acontecia com meus medos estranhos, meus pesadelos, eu não podia controlá-los, mas o senhor podia. Essa é uma das vantagens de se ter um melhor amigo tão poderoso. Não que eu fosse interesseira, mas eu tinha plena consciência disso. 

E eu não sei o que aconteceu, mas, conforme fui crescendo, algo nos afastou um pouco. Embora eu não o tivesse esquecido, me senti longe o bastante do senhor para me enxergar fraca. Me afastei tanto que me acostumei a querer resolver tudo sozinha. Me afastei tanto que criei uma armadura. Uma inútil armadura.

Quando me dei conta, o escudo que me propus a fazer se transformou num grande e pesado muro. O pior é que por muito tempo eu insisti em arrastá-lo. Imagine, deus: carregar o peso de uma parede pra se livrar do medo! Isso é lá coisa que se faça? 

Eu já não tenho três anos. Mas ainda preciso compreender que, mesmo que eu conseguisse dominar um exército inteiro, barrar a guerra civil egípcia ou pintar a estátua da liberdade de azul e cor-de-rosa, jamais teria o controle daquilo que só você pode me dar com um sorriso de amor que extrapola o contorno das nuvens e torna o mundo mais bonito todas as manhãs: a paz de espírito. 

Não tenho o que reclamar das minhas noites. Hoje não tenho mais tantos pesadelos, mas os santos de barro que me assombram, me atacam o pensamento em plena luz do dia. É tanta ansiedade, é tanto medo e desespero que talvez eu me sinta mais criança do que vinte anos atrás. 

Não, Papai do céu. Eu não tenho mais três anos, mas se ainda couber no seu abraço, quero me aconchegar nele. 

Por isso vim dizer que estou com saudade. Sei que andei displicente e volto bem mais pesada. Mas,se não for pedir muito, poderia me pegar no colo outra vez?

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Carta ao paraíso

Doía ser mulher
doía no estômago

Doía ser santa
a escrava da moral invisível
Doía ser puta
a dona da carne perecível

Doía ser refém do desejo dele
mas doía não tê-lo

Doía ser tanto
e no entanto
valer pela cor do cabelo

Doía não ter voz
e ter tudo pra dizer
Doía, adia em nós
Doía ter que ser

Doía ter que respeitar
Doía ser o pecado
Doía ter medo de andar
Pra escapar de tarado

Doía, Eva

Doía ser refém
usar salto
decote e sainha
pra se sentir viva e bem

Doíam a obrigação de ser bela
e a hipocrisia a nos engolir
Doíam os concursos de beleza
os contos fajutos de princesa
Doíam mais que o bisturi






E dava medo, Eva
Dava medo de existir.

terça-feira, 18 de junho de 2013

Tatiana Belinky e o feitiço do verbo



“[...] Porque dentro de um livro cabe um castelo, uma floresta, uma cidade inteira…”

Em 1919, uma guerra civil assolava o território russo. Viver na terra de Stálin havia se tornado uma opção arriscada demais para aquela família, que, em meio a tanta confusão, resolveu migrar para a Letônia algum tempo depois. A menina Tatiana tinha pouco mais de um ano.

Tatiana passou parte da infância naquele país, na cidade de Riga. Sempre apaixonada por livros, aprendeu a ler cedo, descobrindo, por meio da leitura, um universo infinito de coisas infinitas. Em 1929, com dez anos de idade, teve de partir para o Brasil com a família, em decorrência de inúmeros problemas políticos e sociais na Letônia. Naquele ano, chegava ao Rio de Janeiro, a jovenzinha que seria uma das mais proeminentes escritoras da nossa literatura infanto-juvenil, Tatiana Belinky.

Ainda que em território desconhecido, a pequena não hesitou em querer conhecer a literatura da nossa terra. Um dos primeiros textos que leu em Português foi uma biografia de Monteiro Lobato. Desde então, Belinky passou a se familiarizar com as nossas letras. Lobato já era um renomado escritor. Nesta época, criava polêmicas com suas críticas sociais ,ao mesmo tempo em que adquiria uma legião cada vez maior de leitores por sua obra fascinante.

Tatiana casou-se com Júlio Gouveia, intelectual com quem escreveu em parceria, adaptando grandes clássicos infantis para o teatro. Naquele tempo, não havia teatro para crianças. O casal foi precursor na arte de entreter o público infantil nos palcos. A primeira peça foi uma adaptação do clássico Peter Pan.

Lobato
Certa noite, Tatiana recebeu um telefonema inesperado. Era o escritor Monteiro Lobato, que queria conhecer seu marido, Júlio Gouveia, porque havia se encantado por um texto do dramaturgo. Pouco tempo depois, Lobato fez uma visita ao casal, tomou um cafezinho, e os três conversaram durante duas horas. Júlio e Tatiana quase não acreditavam que aquilo estava acontecendo. O casal mantinha uma admiração tão intensa pelo escritor, que depois de se despedir do pai de Emília e Visconde com um aperto de mão, Gouveia brincou: “Nunca mais lavo esta mão!”

A relação do casal com Lobato não terminaria ali. Tempos mais tarde, Tatiana e Julio foram convidados para elaborar a primeira adaptação do “Sítio do Pica Pau amarelo” para a TV. A fazenda de dona Benta saiu dos livros para a telinha na década de 1950, encantando até mesmo o público adulto.

Tatiana nas prateleiras
Em 1985, Tatiana lançou-se também como escritora de livros, chegando a publicar 150 obras que a renderam uma série de prêmios, como o Jabuti de 1989. Ao enumerar os sonhos de sua infância, a escritora certa vez contou que um deles era o de ser bruxa. Uma bruxa boa que pudesse transformar tudo com um toque de magia.

Aos 94 anos, Tatiana talvez tenha se dado conta de que não precisou ter se tornado uma bruxa para transformar a vida de milhares de crianças por meio do toque mágico e sublime de sua literatura. Embora tenha nos dado adeus no último domingo, deixou um caleidoscópio literário que ainda promete colorir a infância de muita gente.

domingo, 16 de junho de 2013

Forma

Para existir, é preciso pertencer. Nós, águas, só nos sentimos realmente vivas quando estamos certas de que pertencemos a algo ou a algum lugar. Ser água por água é não ser coisa nenhuma. Isso talvez justifique nossa aparente indefinição.

Somos líquidos submissos e vulneráveis ao que nos venha possuir. Se estamos no copo, somos cilindro; se estamos no rio ganhamos a forma do leito; se estamos no mar, temos gosto de sal. E vivemos em busca do que nos possa definir da maneira mais confortável. Vivemos presos à necessidade de ser algo, de ser alguém. De ser de algo, de alguém.

E assim como a água do copo precisa estar dentro dele, o copo da água precisa dela para estar completo. O leito do rio sem água não é rio, a água do rio sem o leito, tampouco. É por isso que nos tornamos nuvens, invadimos os corpos, despencamos nos lagos, nos arrastamos até o mar. Vivemos inquietas e inconformadas, temos saudade de onde viemos, queremos ter pra onde ir.

E embora nossa forma instável nunca mude, almejamos, ao menos, a estabilidade que só o pertencimento nos rende. Seja cálice, seja lagoa, seja o que for. Assim, as partes do mundo se constroem quando, na indefinição,  se aliam ao que têm como fonte de completude.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

dona cora sabia das coisas



Estavam ali parados. Marido e mulher.
Esperavam o carro. E foi que veio aquela da roça
tímida, humilde, sofrida.
Contou que o fogo, lá longe,
tinha queimado seu rancho,
e tudo que tinha dentro.
Estava ali no comércio pedindo um auxílio
para levantar novo rancho e comprar suas pobrezinhas.
O homem ouviu. Abriu a carteira tirou uma cédula,
entregou sem palavra. A mulher ouviu.
Perguntou, indagou, especulou, aconselhou,
se comoveu e disse que Nossa Senhora havia de ajudar
E não abriu a bolsa. Qual dos dois ajudou mais?
Donde se infere que o homem ajuda sem participar
e a mulher participa sem ajudar.
Da mesma forma aquela sentença:
“A quem te pedir um peixe, dá uma vara de pescar.”
Pensando bem, não só a vara de pescar, também a linhada,
o anzol, a chumbada, a isca,
apontar um poço piscoso e ensinar a paciência do pescador.
Você faria isso, Leitor?
Antes que tudo isso se fizesse o desvalido não morreria de fome?
Conclusão: Na prática, a teoria é outra.

(Cora Coralina, em Confissões de Aninha)