domingo, 15 de abril de 2012

ponteiros

teu mistério
sopra a vela
que me acende
as verdades

eu me apago
vejo trevas
caio eu
caem as tardes

tempo louco
noite escura
e você sem dizer nada
vai-se embora
minha cura
em tua omissão sangrada

me pergunto
te indago
puxo o banco
puxo o lenço
me ensurdeço
caio aos prantos
de horror ao teu silêncio


quinta-feira, 15 de março de 2012

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Na sala de jantar

Não que eu não tenha o que dizer. Apenas prefiro deixar que meu silêncio filtre o que é preciso ser dito. Palavras demais geralmente transbordam o copo, caem sobre a mesa e acabam manchando a madeira. Para sempre.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

coma bélico


não sei levar o amor de qualquer jeito
nem acolher a dor que me angustia
me tire dessa guerra arruaceira
me leva embora agora e me alivia
estou caída em meio a uma trincheira
me arraste pro meio da enfermaria

e anestesia
e anestesia

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Festa de arromba


Um dia, o Gerúndio deu a todos uma notícia que fez sacudir cada página daquela gramática:

- Pessoal, na semana que vem, vou estar dando uma festa lá no meu parágrafo.

 A Onomatopéia, animada, como ela só, saltou do seu recinto:

- Opa! O que a gente precisa levar?

E o Gerúndio,após tirar os convites do bolso, respondeu distribuindo os ingressos entre a galera:

- Vocês só precisarão estar levando estes ingressos.Estarei esperando por todos fantasiados.
- Então, a festa é à fantasia? - Perguntou a Interjeição

O dono do evento disse que sim acenando com a cabeça. A euforia foi total.Naquele mesmo dia, todo mundo escolheu sua roupa.O livro inteiro queria colocar as "aspinhas" de fora e ousar no visual. O Acento Agudo quis se fantasiar de Ponto Final (Sempre invejou o formato circular do companheiro).O Ponto Final, por sua vez, quis se vestir de Letra O (Sempre sonhou em ser uma bolinha um pouquinho maior). A Vírgula, a mais ponderada da Gramática, resolveu se vestir de Hipérbole...Enfim,imaginem só no que deu!

O grande dia chegou e a festa foi um "estouro"! O Sufixo passou a noite xavecando a Raiz, sem muito sucesso porque esta já estava de olho no Período Composto.Acontece, que ele se encantou pela Paráfrase, que estava de olho no Sujeito Paciente de uma oração qualquer. Só que o Sujeito Paciente nutria um amor platônico pela Antítese, fantasiada de Metáfora. Quando resolveu se declarar à amada, era tarde demais! Ela já estava aos beijos com o Paradoxo sobre a margem direita daquela página. Conclusão: Eis o único casal formado ali. "Antítese e Paradoxo". E quem disse que os opostos não se atraem?

O resto da turma ficou curtindo a dor de cotovelo e muitos até imploraram um milagre a Santo Antônimo. Como Santo Antônimo sempre costuma dar o contrário do que lhe pedem, alguns preferiram não arriscar um pedido. Hoje, quando abri o dicionário, encontrei o convite de casamento do Paradoxo e da Antítese. A festa será amanhã no rodapé do sumário do Dom Casmurro. Todo mundo vai estar lá, gente! Eu não perco essa por nada! .

(Me contaram que teremos sopa de letrinhas no jantar!)

domingo, 15 de janeiro de 2012

Cicatriz

Uma hora a gente sempre bate a testa
Se não quebra a cara na parede
Quebra a parede com a cara

O mais bonito nisso tudo
é a cicatriz que fica
Pra lembrar que a parede é de vidro
Pra lembrar que ninguém é de aço
Pra lembrar que querer ser perfeito
é deixar que o perfeito lhe escape dos braços

sábado, 7 de janeiro de 2012

Sem alça


E a bolsa guardada
guardava tanta coisa
A carteira nova
da mãe daquela moça
que ainda guardava
dobrava a velha carta
que havia ganhado
do seu ex-namorado
que ainda sofria
com o fim do noivado
com a moça da bolsa
que o havia deixado

E a bolsa guardada
guardava tanta coisa
a nota da moça
que havia viajado
sozinha e perdida
com um pé calejado
de tanto fugir
de um homem transtornado

E a bolsa guardada
guardava tanta coisa
o creme vencido
e o enfeite que o amigo
havia doado
àquela bela moça
que por um impulso
perdeu todo o juízo
ao ver que o mundo
não era um paraíso

E a bolsa guardada
guardava tanta coisa
o auto-epitáfio
da moça amedrontada
que ainda escondia
a marca da pedrada
sob seus cabelos
com uma fita listrada

E a moça guardada
guardara tanta bolsa
A bolsa azul
que vivia fechada
A bolsa amarela
por dentro decorada
em tons tão escuros
com cor preta espalhada
A bolsa vermelha
deixada ali de lado
Sua bolsa branca
de tecido rasgado
até camuflado
junto a um pano desbotado

Tanta coisa numa bolsa
Tanta bolsa pra uma moça
Tanta moça numa bolsa
Uma moça,
Uma bolsa.