domingo, 26 de maio de 2013

céu


correr pode parecer libertador.
porque quando se corre, os caminhos são apenas vultos e as paisagens, uma porção de cores que se misturam numa euforia louca conforme o movimento dos nossos olhos.

não há verdade, não há mentira, não há prisão, só a ilusão de escolher um formato para os desenhos indefinidos ao longo da estrada.

mas de repente você tropeça na pena de um pássaro, que te obriga a parar um instante,  te oferece carona e te chama pra voar.

você, a princípio, tem medo. se desespera.

porque ele quebra suas verdades de cristal e se propõe a te ajudar a montá-las, não por caridade, mas para conhecer cada fragmento do que nem você mesma compreende.

em troca de quê?
da sua companhia.

e, por fim, arranca a superfície dos seus medos até que você se sinta nua e  pronta pra vestir uma nova vida.

segunda-feira, 29 de abril de 2013


"e por que me permito soltar das mãos que pintaram as estrelas e seguram as lágrimas que caem?"

terça-feira, 23 de abril de 2013

Disco


Ela vivia seus dias
sem jamais cantar em vão.
Com saudades do amado,
esperava encontrá-lo
como quem busca o belo embalo
que há na doçura de um refrão.

5 de janeiro de 2011



Confissão


Quis achar a minha paz na inquietação da sua alma
fui buscar felicidade em sua feição amargurada
 Procurei minha euforia em teus surtos de silêncio
E até hoje não entendo
como é que há tanto tempo
eu me encontro em você.

setembro/2010


sexta-feira, 12 de abril de 2013

Desencontro


ela não quis escutar, ele queria dizer
ele tapou os ouvidos, ela tentou escrever
ela tremia em fúria, ele queria entender
ambos buscavam a paz, ambos queriam saber

ela virou a esquina
ele pegou qualquer trem
ambos sofriam afoitos
ambos não viam ninguém

depois do tempo passado
viram um baú trancado
nem ele
nem ela
abririam o cadeado

o adeus fechou a caixa,
e enfeitou com belas fitas
deixando ali guardadas
as palavras nunca ditas
7 de julho de 2010

sexta-feira, 29 de março de 2013

mãos cheias


Você vai ficar pensando nas mil coisas que tem pra fazer. Vai se matar tentando cronometrar suas funções e montá-las em sua agenda como um quebra-cabeça. No fim das contas, vai conseguir colocar apenas uma peça no lugar: aquela que, sem você notar, se tornou prioridade pra você.

As prioridades saltam e invadem sua rotina, pintando seu tempo hábil de uma só cor. E você não tem culpa. Você fez o que pôde.

Então o jeito é você descansar com a consciência tranquila.

Fique uma rodada sem jogar.

quarta-feira, 6 de março de 2013

sexta-feira, 1 de março de 2013

Uma razão às avessas


Entre as máximas de Voltaire, está aquela que, para mim, representa o ápice do equilíbrio racional: “Posso não concordar com nenhuma palavra que você diz, mas defenderei até a morte seu direito de dizê-la.” Fruto de uma geração de pensadores guiados pelo livre uso de uma razão bombardeada por fanáticos dos mais variados calibres, o filósofo, também poeta, dramaturgo e romancista, procurava basear sua obra em pensamentos independentes de qualquer conceito prévio que pudesse esbarrar em suas ideias.

Assim como o francês, outros intelectuais, conscientes de que a tolerância e o respeito deveriam andar juntos, viam na análise ponderada de credos e modos de vida, um caminho de luz e sabedoria. Quase 300 anos depois da publicação da primeira obra de Voltaire, a mesma razão que desatou o nó do Antigo Regime no século XVIII e respingou ideais de liberdade no mundo inteiro tem ganhado novas faces. A mais ridícula delas aparece sob a forma de preconceito. Sobretudo, um grupo em especial me chama a atenção: o de ateus que, assim como religiosos que subestimam o caráter dos alheios à fé, questionam a bagagem intelectual de teístas, contrapondo fé e razão de maneira tosca e grotesca .

É fato que o repúdio cego aos ateus é comum e pobre, como já mencionaram Eliane Brum e Dráuzio Varela (colunistas de quem gosto muito) em artigos publicados em grandes veículos de comunicação. Mas, por outro lado, há um grande número de ateus que não hesita em atacar criacionistas, seja em sátiras superficiais e ofensivas nas mídias sociais, seja em rodinhas de conversa entre amigos. O mais engraçado é que a maioria deles justifica a descrença em Deus em um discurso pautado na razão, mas se afasta de um dos princípios básicos do pensamento racional: a tolerância.

Sim, Voltaire deve estar se remoendo na cova. A propósito, duvido que algum filósofo iluminista, de Spinoza a Rousseau, estaria em paz consigo mesmo com essa situação. Voltaire era cristão. Spinoza, uma espécie de panteísta. Diderot, ateu. Entretanto, nenhum deles abriu mão de pensar de forma coerente frente às ideias alheias, apesar das claras divergências entre a forma como encaravam a metafísica.

A Igreja matou milhões, a política está repleta de cristãos militantes, oportunistas ou não. Ok. Mas isso não deve justificar a insensatez de quem pretende combater a cegueira moral com a mesma moeda. O que é bom, a gente repassa, o que é ruim, a gente descarta. Isso é tão simples!

27 de abril de 2012