quarta-feira, 5 de junho de 2013

dona cora sabia das coisas



Estavam ali parados. Marido e mulher.
Esperavam o carro. E foi que veio aquela da roça
tímida, humilde, sofrida.
Contou que o fogo, lá longe,
tinha queimado seu rancho,
e tudo que tinha dentro.
Estava ali no comércio pedindo um auxílio
para levantar novo rancho e comprar suas pobrezinhas.
O homem ouviu. Abriu a carteira tirou uma cédula,
entregou sem palavra. A mulher ouviu.
Perguntou, indagou, especulou, aconselhou,
se comoveu e disse que Nossa Senhora havia de ajudar
E não abriu a bolsa. Qual dos dois ajudou mais?
Donde se infere que o homem ajuda sem participar
e a mulher participa sem ajudar.
Da mesma forma aquela sentença:
“A quem te pedir um peixe, dá uma vara de pescar.”
Pensando bem, não só a vara de pescar, também a linhada,
o anzol, a chumbada, a isca,
apontar um poço piscoso e ensinar a paciência do pescador.
Você faria isso, Leitor?
Antes que tudo isso se fizesse o desvalido não morreria de fome?
Conclusão: Na prática, a teoria é outra.

(Cora Coralina, em Confissões de Aninha)

domingo, 26 de maio de 2013

céu


correr pode parecer libertador.
porque quando se corre, os caminhos são apenas vultos e as paisagens, uma porção de cores que se misturam numa euforia louca conforme o movimento dos nossos olhos.

não há verdade, não há mentira, não há prisão, só a ilusão de escolher um formato para os desenhos indefinidos ao longo da estrada.

mas de repente você tropeça na pena de um pássaro, que te obriga a parar um instante,  te oferece carona e te chama pra voar.

você, a princípio, tem medo. se desespera.

porque ele quebra suas verdades de cristal e se propõe a te ajudar a montá-las, não por caridade, mas para conhecer cada fragmento do que nem você mesma compreende.

em troca de quê?
da sua companhia.

e, por fim, arranca a superfície dos seus medos até que você se sinta nua e  pronta pra vestir uma nova vida.

segunda-feira, 29 de abril de 2013


"e por que me permito soltar das mãos que pintaram as estrelas e seguram as lágrimas que caem?"

terça-feira, 23 de abril de 2013

Disco


Ela vivia seus dias
sem jamais cantar em vão.
Com saudades do amado,
esperava encontrá-lo
como quem busca o belo embalo
que há na doçura de um refrão.

5 de janeiro de 2011



Confissão


Quis achar a minha paz na inquietação da sua alma
fui buscar felicidade em sua feição amargurada
 Procurei minha euforia em teus surtos de silêncio
E até hoje não entendo
como é que há tanto tempo
eu me encontro em você.

setembro/2010


sexta-feira, 12 de abril de 2013

Desencontro


ela não quis escutar, ele queria dizer
ele tapou os ouvidos, ela tentou escrever
ela tremia em fúria, ele queria entender
ambos buscavam a paz, ambos queriam saber

ela virou a esquina
ele pegou qualquer trem
ambos sofriam afoitos
ambos não viam ninguém

depois do tempo passado
viram um baú trancado
nem ele
nem ela
abririam o cadeado

o adeus fechou a caixa,
e enfeitou com belas fitas
deixando ali guardadas
as palavras nunca ditas
7 de julho de 2010

sexta-feira, 29 de março de 2013

mãos cheias


Você vai ficar pensando nas mil coisas que tem pra fazer. Vai se matar tentando cronometrar suas funções e montá-las em sua agenda como um quebra-cabeça. No fim das contas, vai conseguir colocar apenas uma peça no lugar: aquela que, sem você notar, se tornou prioridade pra você.

As prioridades saltam e invadem sua rotina, pintando seu tempo hábil de uma só cor. E você não tem culpa. Você fez o que pôde.

Então o jeito é você descansar com a consciência tranquila.

Fique uma rodada sem jogar.

quarta-feira, 6 de março de 2013