sexta-feira, 1 de março de 2013

Uma razão às avessas


Entre as máximas de Voltaire, está aquela que, para mim, representa o ápice do equilíbrio racional: “Posso não concordar com nenhuma palavra que você diz, mas defenderei até a morte seu direito de dizê-la.” Fruto de uma geração de pensadores guiados pelo livre uso de uma razão bombardeada por fanáticos dos mais variados calibres, o filósofo, também poeta, dramaturgo e romancista, procurava basear sua obra em pensamentos independentes de qualquer conceito prévio que pudesse esbarrar em suas ideias.

Assim como o francês, outros intelectuais, conscientes de que a tolerância e o respeito deveriam andar juntos, viam na análise ponderada de credos e modos de vida, um caminho de luz e sabedoria. Quase 300 anos depois da publicação da primeira obra de Voltaire, a mesma razão que desatou o nó do Antigo Regime no século XVIII e respingou ideais de liberdade no mundo inteiro tem ganhado novas faces. A mais ridícula delas aparece sob a forma de preconceito. Sobretudo, um grupo em especial me chama a atenção: o de ateus que, assim como religiosos que subestimam o caráter dos alheios à fé, questionam a bagagem intelectual de teístas, contrapondo fé e razão de maneira tosca e grotesca .

É fato que o repúdio cego aos ateus é comum e pobre, como já mencionaram Eliane Brum e Dráuzio Varela (colunistas de quem gosto muito) em artigos publicados em grandes veículos de comunicação. Mas, por outro lado, há um grande número de ateus que não hesita em atacar criacionistas, seja em sátiras superficiais e ofensivas nas mídias sociais, seja em rodinhas de conversa entre amigos. O mais engraçado é que a maioria deles justifica a descrença em Deus em um discurso pautado na razão, mas se afasta de um dos princípios básicos do pensamento racional: a tolerância.

Sim, Voltaire deve estar se remoendo na cova. A propósito, duvido que algum filósofo iluminista, de Spinoza a Rousseau, estaria em paz consigo mesmo com essa situação. Voltaire era cristão. Spinoza, uma espécie de panteísta. Diderot, ateu. Entretanto, nenhum deles abriu mão de pensar de forma coerente frente às ideias alheias, apesar das claras divergências entre a forma como encaravam a metafísica.

A Igreja matou milhões, a política está repleta de cristãos militantes, oportunistas ou não. Ok. Mas isso não deve justificar a insensatez de quem pretende combater a cegueira moral com a mesma moeda. O que é bom, a gente repassa, o que é ruim, a gente descarta. Isso é tão simples!

27 de abril de 2012

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013


Era um continente que se orgulhava em ser o único chão do planeta em meio ao oceano. Seu nome era Pangeia. Ele vivia satisfeito e completo até começar a se fragmentar. Depois de ser despedaçado e se tornar cinco bloquinhos dispersos sobre o globo, passou a formular planos para unir todas as suas partes da melhor forma possível.

Era exatamente por isso que, durante a Idade Moderna, algo dizia à Europa que havia alguma coisa a mais do que água no fim do Oceano Atlântico. Aquele sentimento que atraia as naus e caravelas portuguesas e espanholas para a América era a saudade que a Pangeia tinha do seu outro pedaço. Saudade essa, que nem mesmo as os fatores exógenos e endógenos da Terra, que corroíam as rochas por dentro e por fora, conseguiam destruir.

O tempo foi passando… Deu-se a colonização do “novo mundo”. A América passou a ser parte da Europa. Depois a Ásia e a África também foram integradas. A Oceania se juntou depois. Não digo que foi um processo justo e perfeito, mas foi a forma que a pobre Pangeia encontrou para poder estar completa novamente. Depois das embarcações, surgiram os telégrafos, aviões, telefones, televisões, computadores. E a Pangeia ia encaixando suas peças como num quebra-cabeças.

Hoje, quase não há limites entre a Europa, a América, a Ásia, a África e a Oceania. Com um simples clique, a Itália pode se ligar ao Chile, por exemplo. E ainda que o Paquistão use um véu e o Caribe use biquíni, os dois não vivem sozinhos.

Da mesma forma, eu não vivo sem as tantas pessoas que fazem parte de mim.
Da mesma forma, Carol, mesmo que você escute músicas do Líbano e eu goste de Claudinha Leitte, precisamos estar juntas. Da mesma forma , ainda que você passe anos sem vir me contar as novidades, eu serei sempre uma Pangeia que sente sua falta quando você está longe.

Lívia
11 de fevereiro de 2011

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

segredos

O tempo nos revela seus mistérios como quem abre um pergaminho sob um ritmo passível de leitura. Ele se nega a nos mostrar parágrafos que não conseguiremos ler agora.

Volte duas casas.

domingo, 24 de fevereiro de 2013



"amar não significa ter que sacrificar partes de si mesmo.
amar é maior do que a soma das partes."
(a matemática do amor)

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

280 dias

Janeiro quente, emprego novo: primeira semana de estágio. Sexta-feira atribulada. Redação a mil. Acidente em rodovia. Ônibus velho e caminhão de cimento. O chefe entra correndo.

- Lívia, pega o cinegrafista e vai.

Foi assim que conheci o sujeito pelo qual procurava desde os onze anos. Um velhinho descolado, de calça xadrez e óculos de sol. Quase não acreditei.

- É você, Jornalismo?

Ele ignorou meu olhar bajulador. Sem o menor glamour, me abriu um sorriso modesto e selou nosso primeiro encontro com uma piscadela marota. Talvez tenha sido um jeito de dar boas vindas. E todo dia, ele entrava de roupa nova, ora beirando o desespero, com blusão de bebum arrasado, ora sorrindo até as orelhas, de batinha estilo Gandhi. E eu ficava olhando, esperando ansiosa pela roupa seguinte. Até ele gritar comigo e me propor um convite quase que compulsório:

- Tá esperando o quê, menina? Vá se trocar, agora!

Entrei no armário dele. Vi gente triste, vi gente alegre, vi gente presa, gente com sorte, gente má, gente boa até demais. Me despi de mim pra me vestir de vida. O velhinho achou graça.

- Agora sim!

Saí na rua e vi um mundo esquisito. O mundo de Nelson Rodrigues, de Dostoievski, de Machado… O mundo louco e realista que por muito tempo eu me neguei a enxergar. E os grandes mestres, antes refutados por meu espírito utópico e minha alma lunática, deram gargalhadas, parados em minha frente.

- A gente bem que tentou te avisar.

Soltei da mão de Alice. Me despedi da Rainha de Copas e do Chapeleiro Maluco. Olhei pro tal Jornalismo:

- Agora eu vou com você.

Da floresta encantada, fui cair numa selva cujo encanto era o mais real possível. O velhinho virou o mundo do avesso pra mim e me fez notar as coisas muito além da superfície. Com um olhar firme e satisfeito, sorriu, como quem entrega uma missão a alguém:

- Agora conte a história, minha filha. Mostra o mundo a quem quer ver.

Deixas, sonoras e offs… ou seriam offs, sonoras e deixas? Perdida em entre termos, contatos, furos e pautas, passei a cantar baixinho, o velho mantra de Leminski:

- Distraídos, venceremos.

E, mais uma vez, o velhinho me sacudiu:

- Volta pra Terra, já!

Desde então tem sido assim. Quando me distraio em caminhos metafóricos lá do alto da montanha, ele me traz de volta pra me mostrar que Jornalismo é poesia por si só.

Oito meses depois, e aqui estou. Já chorei de medo, de pânico, de pena, de culpa, quis até ser abduzida. Mas cada vez que olho pro velhinho louco de perto, quero jurar amor eterno, jogar meu medo fora, mostrar o mundo ao mundo e abraçá-lo com vontade pra dizer sem nenhum receio:

- É um prazer te conhecer!

Talvez porque depois daquele encontro, algo me fez sentir que seríamos companheiros para o resto da vida.

Setembro/2012

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

3,2,1.



Um olhar, uma palavra, um sorriso, um silêncio repentino. Você pode se arrastar pela mesma linha cinzenta durante dias, mas vai ser um instante brusco que definirá a cor da massa abstrata que você chama de vida.

O “não, obrigado” do magnata mão de vaca pode comer metade da sua comissão na loja. O ”parabéns” do seu chefe pode ser a promoção que vai devolver seu entusiasmo. O breve sorriso doce do moço esquisito pra quem você não dava a mínima pode te prender àqueles olhos de um jeito inexplicavelmente mágico, assim, do nada. Um pequeno anúncio dizendo que sua banda favorita vai tocar na cidade pode mudar todos os planos que você tinha para o fim de semana. Um SMS daquela amiga que você achava que nem se lembrava mais de você pode alterar seu humor de uma hora para outra.

Nossa vida é composta de instantes preciosos. Mas há sempre aqueles segundos banhados a ouro legítimo. Eles são decisivos. Viver direito é reconhecê-los. É ter a certeza de que os ponteiros do relógio sabem sim aonde vão. É entender que por mais que você queira exaltar as longas páginas em branco da sua agenda, serão os pequenos instantes ocultos ali que vão mudar sua vida para sempre.

18 de julho de 2012

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

A fórmula


Eu devia ter doze anos quando visitei a fábrica de Coca Cola com a turma da sexta- série. Na primeira sala de palestras, a monitora falou do 7x, a fórmula secreta do refrigerante, na época, revelada a apenas quatro pessoas no planeta. A Coca Cola foi criada como um xarope comum e bastaram algumas décadas para a solução ganhar o mundo. De lá pra cá, empresas tentaram copiar a bebida de várias maneiras, em vão. Até hoje, ninguém conseguiu atingir o ápice do sabor proporcionado pela tal fórmula misteriosa.

Quando assisti  Brilho eterno de uma mente sem lembranças (2004) isso me veio à cabeça. No filme, Jim Carrey e Kate Winslet são Joel e Clementine, um casal que resolve apagar da memória tudo o que viveu junto. De maneira incrível, a trama quebra com a linearidade comum aos romances convencionais e contrapõe o silêncio e as sombras à destruição gradativa de um passado que parece não querer ser apagado. A produção do francês Michel Gondry, com roteiro do novaiorquino Charlie Kaufman recebeu vários prêmios e indicações. Sua abordagem inusitada da memória surpreendeu os críticos.

O que impressiona é ver que mesmo com o fim das lembranças, o sentimento que unia o casal não morria. Parecia existir uma poção oculta ao fundo de cada lembrança apaixonada dos dois. Como se houvesse um 7X naquele sentimento que o fazia especial, viciante, secreto e, por isso, talvez, indestrutível. Alguns costumam aludir o amor às circunstâncias que o alimentaram. Assim, apagar memórias da pessoa amada parece uma opção coerente para quem quer deixar de sofrer por uma paixão, mas há algo que fica. Porque nem só de lembranças é feita uma história de amor. Existe algo mais forte que ninguém sabe o que é. Uma fórmula secreta por trás de cada impulso apaixonado, um 7x da empatia amorosa. Ele pode ou não aparecer com o passar dos dias, mas se não aparece, o amor será fajuto e estranho. No máximo, uma Pepsi.

Clementine e Joel não contavam com isso e as lacunas na memória não foram suficientes para minimizar a lacuna deixada por um amor arrancado à força de seus corações. Extraíram o xarope base, mas se esqueceram de tirar do peito, os ingredientes secretos.