sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

O jardim secreto e o despertar da primavera



Das lembranças que tenho da infância, a do jardim secreto de Mary Lennox foi uma das mais marcantes. A história de um universo escuro que se abria frente ao sol me acendia para o mundo e me fazia florescer, ainda que eu não entendesse bem o efeito daquilo . Tanto o desenho (1994) quanto o filme de Holland (1993) foram, por anos, meus preferidos na locadora. Cheguei a perder as contas do quanto aluguei aquelas fitas.

Em uma das cenas mais bonitas da versão animada , as crianças olharam para o jardim morto e cinzento e quase desistiram de restaurá-lo. Foi então que o pequeno Dickon cortou o tronco de uma das árvores e percebeu que, por dentro, ele estava verde. E tudo passou a valer a pena, quando algo respirava ali. Trabalhar por um lugar mais bonito era compreender que enquanto houvesse vida no tronco, haveria promessa de flores para a próxima estação.

Às vezes nos sentimos mortos. Por dentro e por fora. Por um instante, nada mais dói, nada mais vale e só o silêncio combina com o que temos a oferecer ao mundo: o vazio. Mas algo fere nossa superfície de repente e o sangue que nos escorre acorda aquilo que parecia já ter morrido. Bons ventos inesperados sopram súplicas em nossos pulmões e pedem a vida de volta até agarrarmos o compromisso de escrever nossa própria história.

Assim, jardins se erguem todos os dias na Terra. Vidas começam de novo e flores enfeitam asfaltos, onde também crescem árvores com o xilema e o floema a todo vapor. Ali, apesar das rachaduras no terreno, só há espaço para contemplar o que é bom. Quem olha bem próximo ao chão, percebe o esforço das raízes que empurram a seiva bruta para as folhas como uma engrenagem que não se cansa. E quando o verde renova as ruas, é só a vida avisando que é hora de ser feliz.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Papel almaço


Há quem tente, sem sucesso, nos marcar com canetas sem tinta.
Há quem nos contorne com giz, quem nos esfume com cera,
quem nos corta, quem nos carimba.

Há quem nos rabisque, quem nos dobre, quem nos rasgue.
Há quem nos manche, nos desmanche, nos estrague.

Mas ele me pegou pelos cantos
me trouxe de volta ao branco
e preencheu com lápis de cor
os espaços entre minhas margens.

Depois, fez poesia sobre minha superfície.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Peter Pan


prefiro a mentira bonita
à verdade que, dita,
me fere e corrói

me afaste a palavra maldita
me esconda nas sombras
dos contos de herói

devolva a poesia da qual não me lembro
deixa eu ver os dias como eu bem entendo
pois, o que é a vida, senão
a impressão de estar vivendo?

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

pena

o maior erro de Teresa
foi roubar-se de si mesma
e entregar-se a alguém

logo as coisas mudariam
quem podia imaginar
que suas paixões tirariam
seus pedaços do lugar?

oh, teresa
como é que pode?
um amor passa, te consome
leva tua alma
deixa o molde
sem previsão pra voltar?

hoje a brilhante teresa
sangra opaca em carmesim
e murmura ainda presa
- ah, que saudade de mim!

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

rascunho


Hoje revivi tropeços lendo cartas velhas. E aquele passado, passado a limpo, foi meu mais supremo deleite.

Não é que, assim, vista de longe, tanta dor parece enfeite?!

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

sábado, 27 de outubro de 2012

Terrorismo


abri a porta do meu coração
ele entrou

trouxe a mãe 
trouxe a tia 
trouxe o pai
o irmão
a filha 
trouxe a ex (que covardia!)
e uns colegas da Bahia

e então, quem é que entende? 
ele trouxe um passado 
sem nunca ter se importado 
em não me dar um presente

fevereiro de 2010